quinta-feira, 15 de abril de 2010

Apesar de...

Apesar de, por vezes, desacreditar das pessoas
Apesar de achar que as pessoas ficam mais insensíveis a cada dia
Apesar de perceber que a famosa frase posta na boca da raposa do Saint-Éxupery anda meio fora de moda
Apesar disso, apesar daquilo, não se pode deixar de:
acreditar nas pessoas
surpreender-se com a sensibilidade delas
cativar e deixar-se cativar...

Como diria a Clarice Lispector:

"Uma das coisas que aprendi
É que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de
Que nos empurra para a frente"

segunda-feira, 22 de março de 2010

VITÓRIA DA "CRUZ"

Certamente, uma das coisas que mais admiro na liturgia católica é o profundo respeito à perspectiva cíclica do tempo e sua relação com o rito, o qual é, segundo a raposa do livro O Pequeno Príncipe do Antoine Saint-Éxupery, “o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas”.

A liturgia católica diz que estamos no tempo dito “quaresma”, palavra que etmologicamente remonta ao número 40 e que faz referência aos 40 dias que Jesus teria jejuado antes de iniciar sua vida pública. Para as civilizações antigas os números comunicavam mais do que quantidades, expressavam também ideias, conceitos, símbolos. Nessa perspectiva 40 significa também “o tempo necessário para que algo aconteça”.

Realmente, ninguém sabe ao certo se o Cristo ficou 40 dias no deserto ou se o povo judeu, liberto da escravidão do Egito, caminhou mesmo 40 anos rumo à terra prometida de Canaã. Sabe-se apenas que tudo aconteceu no tempo que foi necessário para acontecer.

Literalmente, neste final de semana, várias foram as referências circulares, que me fizeram pensar no tempo, tanto que resolvi escrever alguns pensamentos dentro de um tempo de 40 minutos. Já estou escrevendo a 15. Faltam-me apenas 25 minutos? Não, de modo algum. Tenho o tempo que for necessário para escrever, já que os meus 40 minutos são um conceito abstrato-simbólico e não uma porção física de tempo.

A coisa começou quando ouvi um dos mais tradicionais cantos da quaresma, o “Vitória”. Seu refrão diz: “Vitória, tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás!”. É demasiado interessante a pseudo contradição da letra. Como um instrumento de tortura e de morte como a cruz pode ser a expressão de uma vitória? Porque cantar a vitória ainda na quaresma se a Páscoa só acontece depois?

Todas essas contradições são apenas aparentes, realçadas pelo efeito imediato que temos em nossas perspectivas de vida, esquecendo que tudo é avaliado não só sob a ótica do curto prazo, mas também do médio e, sobretudo, do longo prazo. Ampliando nossas perspectivas temporais, vemos que o sofrimento parece ser, tanto na religião, quanto na História, na natureza, nas Universidades, na Administração, na vida enfim, um dos mais fortes instrumentos para se alcançar a vitória, atingir objetivos, concluir metas, realizar sonhos.

E não, isto não é uma exaltação à dor, mas uma exaltação à “cruz”, ao instrumento, ao meio pelo qual se chega aos fins. A dor do processo é inevitável. Pode doer mais ou menos, mas ainda assim ela – a dor – estará lá e se é inevitável, inevitável também parece ser a necessidade de aprender algo com isso, não para justificar o sofrimento, mas para evitar dores maiores no futuro.

Na palavra “sacrifício” encontramos a mesma raiz de “sagrado”. “Sagrar” tem a ver com “deixar uma marca”. Talvez as palavras nos ajudem a entender porque os momentos mais “marcantes” de nossa vida, os mais “sagrados”, sejam aqueles que tenham exigido tanto “sacrifício” de nossa parte e das pessoas que estão mais perto de nós.

A morte de Jesus foi necessária, sem ela não haveria ressurreição. A cruz, a dor, o sofrimento, a aceitação do momento em prol da humanidade, foi a catarse para o surgimento do Cristianismo. O movimento mineiro por libertação no final do século 18, a traição, o martírio de um homem do povo, sem posses, um dentista, um “tiradentes", sua humilhação pública que deveria desencorajar ações revolucionárias futuras, tudo isso foi a catarse para a independência brasileira, “liberdade ainda que tardia”. As inúmeras e cansativas tentativas de romper o casulo são a catarse que leva uma grotesca lagarta a se transformas numa das mais belas e coloridas criaturas: a borboleta. A extenuante jornada de estudos, o estressante ritmo das aulas, as poucas horas de sono, as tantas renúncias feitas são a cartase para a entrada numa universidade e para a, consequente, escolha de um ofício, de um “sacro-ofício”. A labuta diária, os “sapos engolidos”, a busca pelo atingimento de metas, o rigor de uma jornada de trabalho árdua, são uma catarse para o sucesso profissional, para o reconhecimento da competência individual e do grupo, a “mola” do desenvolvimento econômico e social. O viver, o crescer e o morrer, são enfim, a cartase para o “ser humano”, para que sejamos realmente humanos.

Nota-se então, que a vitória não é ponto de chegada, é caminho, e por isso é importante desde já cantar e decantar a vitória do Cristo Ressuscitado, do mártir patriota, da bela borboleta, do esforçado estudante, do trabalhador perseverante, enfim, do homem e da mulher de cada dia, que ri e chora, mas que busca sempre mais, afinal de contas, se Deus criou o infinito foi pra que a vida fosse sempre mais.

Inicialmente pensei em gastar 40 minutos, mas esse texto demorou 75 minutos para ser feito, ao menos no relógio do meu pulso, porque no relógio do tempo do coração, demorou o tempo que foi suficiente para se concretizar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

DIA DA SAUDADE

Chico Buarque canta que “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, e na sequência busca a resposta para esse sentimento a partir de duas possibilidades: “foi o mundo então que cresceu” ou “a gente estancou de repente”?

Pesquisadores dos efeitos psicológicos do tempo, Zimbardo e Boyd, não perdoam ao nos revelar de forma categórica o que parecemos querer não enxergar: “não há nada que qualquer um de nós possa fazer nesta vida para acrescentar um momento a mais no tempo, e nada permitirá que possamos reaver o tempo mal-empregado.” Ainda assim a gente estanca e mínimos detalhes podem até ser sinais inconscientes desse nosso estancar...

Lembro que quando era criança, minha mãe comprava daqueles calendários onde a cada novo dia devíamos arrancar a folhinha do dia anterior para dar vez à folhinha do dia de hoje. Era uma disputa entre mim e meus irmãos para ver quem conseguia arrancar primeiro a folhinha. Em não raras vezes nos pegávamos esperando dar meia-noite para puxar a nova folha. Éramos crianças, não temíamos o tempo, estávamos sempre ávidos pela mudança, pelo novo dia, pelo espanto que ele trazia aos nossos olhos. A passagem dos dias era celebrada com a alegria da abertura ao desconhecido, ao imprevisível, à novidade.

Vi-me hoje diante de um desses calendários, que comprei ao final de 2009, de certo modo para fazer memória dos tempos passados, tempo onde se olhava para o futuro em cada dia presente. Mas os anos passaram, ou como diria o Renato Russo, “mudaram as estações” e mesmo que digamos que aparentemente “nada mudou”, “mas eu sei que alguma coisa aconteceu”, pois há algo “assim tão diferente”. A diferença era que o calendário marcava o dia 27 de janeiro. Só que já era dia 30 de janeiro, e dia já adiantado, com sol do agreste à pino...

Arranco a folha do dia 27 sem nem lembrar ao certo o que aconteceu nesta data. Faço o mesmo com os dias 28 e 29. Enfim, emparelho o meu calendário com o calendário do mundo. Da mesma forma rápida com a qual arranquei as páginas do calendário, percebo que, como naquela música antiga do Roberto Carlos, “os dias passam correndo”.

Percebo ainda na folhinha, mais um sinal. A palavra “sinal” já não me parece, como antes, tão mais adequada do que a palavra “coincidência”, mas ainda assim insisto, sabe-se lá porque, em usá-la. Na folhinha dizia que 30 de janeiro é o “dia da saudade”.

Até procurei na Internet, mas não encontrei nenhuma razão específica para justo o dia 30 de janeiro ser dedicado à saudade. Talvez por ser o dia do assassinato de Gandhi, sobre o qual Einstein certa vez disse “que as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra”. O mundo sente saudades de Gandhi, de “Gandhis”. Quem sabe talvez, possa ser devido ao fato de que a última apresentação pública dos Beatles antes da separação da banda ocorreu numa tarde fria de 30 de janeiro. Saudades de um sonho que acabou!

De minha parte fiquei pensando se o passar de 30 dias do novo ano não seria aquele tempo suficiente para percebermos que toda aquela euforia, um mês antes, com o novo ano a se iniciar não seria apenas uma forma de fingir para nós mesmos a realidade de que o bom era o “ano velho”, os dias que se foram, a infância de nossas vidas, o símbolo de uma época de sonhos que hoje percebemos como ilusão. Em sendo assim seria normal sentir saudades.

Mas o que falar sobre saudade? É paradoxal ter dificuldades em explicar algo que se é tão íntimo. Se no “Show do Milhão” o Silvio Santos permitia que fosse solicitada a ajuda dos universitários, me permito então pedir a ajuda dos poetas, para que me ajudem a render homenagem à saudade no dia a ela dedicado, ao menos no calendário civil, porque no calendário cordial, todo dia é dia da saudade:


“Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem”
(Clarice Lispector)

“O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”
(Mário Quintana)

“Quando se ouve boa música fica-se com saudade de algo que nunca se teve e nunca se terá”
(Samuel Howe)

“Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue”
(Adriana Falcão)

“Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante”
(Carlos Drummond de Andrade)

“Deus existe para tranquilizar a saudade”
(Rubem Alves)

“Dos nossos planos é que tenho mais saudade”
(Renato Russo)

“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te”
(William Shakespeare)

“Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”
(Bob Marley)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

PROBLEMA DE COLUNA

Estou agora olhando através da janela da minha sala aqui na universidade. A vegetação típica do agreste pernambucano vai se esverdeando novamente com o pouco de chuva que caiu nos últimos dias. Ao fundo, carros vão e voltam pela rodovia que passa aqui perto. Para poder ver melhor, mexo a cabeça de um lado para o outro pois uma pilastra externa à janela divide em duas partes o que quero ver, atrapalhando-me de desfrutar da paisagem em sua totalidade. Um problema!

Depois de algumas mexidas de cabeça me dou conta enfim da existência da tal pilastra. Eu a via sim, ela até me atrapalhava de ver além, mas na verdade eu não a enxergava. Era um nada, um vazio que se posicionava bem em frente ao meu desejo de ver. E como toda pilastra, toda coluna, ela é imóvel, rígida, fixa, teimosa, persistente. Assim, acabei por me ater um pouco a ela e ao dar atenção a esta estrutura acabei por ver outras “paisagens”.

Vi que sem ela, o teto que está acima e que me protege do sol e da chuva que hoje aqui cai, viria abaixo. Vi que a existência dela demandou toda uma história anterior. Fiquei pensando em quem a projetou, nas horas de estudo na faculdade e nos inúmeros cálculos que precisou aprender para definir a resistência do material. Pensei ainda em quem a construiu, operários que talvez nunca tenham a chance de cursar uma faculdade, que tiveram a resistência de, sob sol escaldante, colocar a massa junto com o concreto em determinadas proporções e formas, calculadas por alguém desconhecido, para pessoas ainda mais desconhecidas. Pensei ainda em todas as pessoas envolvidas no processo burocrático que culminou no feitio daquela coluna: planos de governo, contatos, conchavos, orçamentos, politicagens, reuniões acadêmicas...

Assim, aprendi a ficar amigo da coluna em frente a minha janela e a respeitar sua história, seus dissabores, suas alegrias, suas vitórias, sua imparcialidade parcial de quem inevitavelmente só tem uma visão por estar fixa ante a minha janela.

Assim são também as pessoas que aparentemente nos atrapalham. Querem apenas um pouco de atenção, querem se sentir importantes porque de fato são. Chefes dizem que seus empregados são o problema por permanecerem estáticos; professores falam o mesmo quanto a seus alunos por serem teimosos. Esquecemos que só há chefes e professores quando existem empregados e alunos. São eles a estrutura que impede que o mundo venha abaixo, portanto, talvez seja melhor enxergá-los de verdade, ouvir suas histórias, ter novas visões de mundo através das janelas que foram posicionadas em nossas vidas.

O autor do belíssimo livro “O Mundo de Sofia” estava certo quando disse que perdemos a capacidade de ser filósofos quando crescemos, por deixarmos de nos admirar com as coisas simples (como a coluna que insistentemente está há mais de três meses na minha frente). Uma criança com certeza a teria notado e a teria questionado muito antes. Talvez por isso, como disse Jesus, o reino de Deus é delas, primordialmente, pois não se cansam de desfrutar, de se admirar e de questionar o mundo que se apresenta todos os dias ante seus olhos. Preciso aprender mais com as crianças e com as colunas imóveis diante das janelas de minha vida...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

CANTORES FALSOS, BONITAS CANÇÕES

Gosto de músicas que me fazem parar para pensar. O que aconteceu recentemente com “Choro Bandido”, canção do Chico Buarque e do Edu Lobo que até dia desses não conhecia. As palavras iniciais sugestivamente afirmam: “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu, serão bonitas, não importa, são bonitas as canções...” E o restante da música, até os brilhantes versos finais, são uma sucessão de aparentes paradoxos. Apenas “aparentes”, pois o fato de se estar em contradição, mesmo sendo o ato contraditório um paradoxo por natureza, talvez seja a menor das contradições humanas, pois cada um, em algum momento da vida já experimentou a sensação de ser incoerente.

O cantor pode ser falso, mas isso não é essencial quando a música é bonita. O comportamento pode até ser ruim, mas isso não muda o fato de que, por vezes, o sentimento que destoa da ação seja algo bonito.

Nossa sociedade foi educada para julgar fatos concretos, observáveis, mensuráveis, esquecendo que nem sempre o fato em si é o mais importante. Esquecemos de ir na raiz, de nos surpreender com o magia da música, ficamos apenas no nível da superficialidade da voz aparente do cantor. “No peito de um desafinado também bate um coração”, dizia Tom Jobim. As vezes somos péssimos cantores, mas não significa que não saibamos compor belas canções de amor.

Em seu poema “Autopsicografia”, Fernando Pessoa consegue, com o requinte e a sofisticação dos grandes poetas justificar o injustificável. “ O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor...” Não é realmente importante ser um exemplo, mas é importante ter um exemplo.

Sou professor. Ser professor é quase ser um poeta nesse sentido “pessoano”. Seria bom que fóssemos sempre exemplos, que fizéssemos sempre aquilo que ensinamos, mas se não o somos, se – como gosto de brincar com os alunos – professores são gente também (mesmo que alguns de nós não pareçamos), então estamos sujeitos a cair no inevitável da contradição, no paradoxo do ser. Se não somos exemplos porém, não podemos nos dar ao luxo de não termos exemplos a dar. Podemos não conseguir administrar nossas vidas, pôr em prática o que defendemos, mas não será por isso que privaremos os outros de terem as ferramentas necessárias para conduzir seu próprio processo de aplicação de tudo o que aprenderam. Até porque, como gosta de repetir o Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérolas” (explicação: a pérola surge quando a ostra, incomodada por um grão de areia que conseguiu adentrar em seu casco e que a faz sofrer, com o intuito de aliviar esta dor, envolve o tal grão com certa substância, que uma vez cristalizada a denominamos de pérola).

Não quero aqui justificar incoerências, diminuir o valor da ação em detrimento ao pensamento ou mesmo incentivar o exercício da farsa. O julgamento fica por conta de cada um, como sempre acontece... sempre... Estou apenas compartilhando pontos de vista que, parafraseando o final da música do Chico, “mesmo sendo errados, não deixam de ser bons” (ou seria “mesmo que sendo bons, não deixam de ser errados???)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O PRESENTE



Um inusitado presente que ganhei dia desses, me fez parar para pensar... Quem dera os presentes voltassem, especialmente nesta época do ano, a nos fazer pensar. Comecei a perceber que um presente é, ou pelo menos deveria ser, como uma metáfora. Talvez possa até mesmo afirmar que um presente é uma metáfora. Metáfora daquilo que sentimos por alguém, daquilo que desejamos ao próximo. E como metáfora, não há graça na explicação, aliás, pela dimensão simbólica que deveria existir em um presente não seria necessário explicá-lo... símbolos não se explicam, são para ser sentidos, pelos sentidos, com o sentido de produzir um efeito mágico, tal qual acontece com a metáfora quando a compreendemos.

Quando elaboro uma metáfora não posso pensar apenas em mim, devo pensar, sobretudo, na outra pessoa. De que adianta uma metáfora que não é compreendida? Preciso mergulhar na cultura do outro, na sua personalidade, no seu cotidiano, na sua vida. Só assim fará sentido utilizar metáforas. Similarmente deveria acontecer o mesmo com os presentes. Preciso antes me inserir no “eu” que é o “outro”. Infelizmente percebo que estamos perdendo essa dimensão.

Como damos presentes hoje? Para casamentos são feitas listas do que se quer ganhar e até de onde devem ser comprados; para aniversários, listas de desejos deixadas em lojas virtuais; quando da mudança para uma casa nova, “chá de panela” ou “chá de cozinha” (o mais engraçado é que eu soube que não há chás nesses eventos) também com uma relação do que se precisa; até no nascimento de uma criança fazem um “chá de bebê” (fico pensando na pobre criança sendo mergulhada na água fervente... risos) ou o que virou moda, pelo menos nessas bandas de cá: “chá de fraldas”, onde todos dão pacotes de fraldas descartáveis (práticas para os pais, péssimas para o meio ambiente). Ah, e há também as festas de dezembro, Natal e Ano Novo. Para não ter que dar presentes a todos ficamos práticos, inventamos os “amigos secretos”; mas para evitarmos distorções de presentes entre os presentes (dou algo “bom” e ganho uma “lembrancinha”) estabelecemos faixas de preço; só que muitos faltam na festinha de confraternização e para que ninguém dê e fique sem receber um presente, surgiu o “amigo secreto da hora”, todos levam presentes genéricos, “comuns aos dois gêneros”, e o sorteio e a entrega são realizados na hora.

Me pergunto eu: e o pensar no outro? e a emoção de dar algo com significado? e a surpresa do que há de vir? a que ponto chegamos enquanto sociedade? Instrumentalizamos o natal, a passagem de ano, o casamento, o aniversário, a mudança de endereço, até o nascimento de um filho...

E por falar em nascimento de filho, lembro que essa coisa do presente de natal surgiu porque uma criança, Deus feito homem, nasceu há mais de dois mil anos atrás. Essa criança nasceu numa manjedoura, nome bonito e sofisticado para os nossos atuais currais e chiqueiros. Mas seu nascimento mereceu uma bonita festa. Uma noite estrelada, um coro de anjos e... presentes. Homens vindos de longe trouxeram ouro, incenso e mirra. Por que? Ouro, pela linhagem real do menino. Incenso, por sua dimensão divina. Mirra, por sua natureza mortal (a mirra era a principal erva utilizada no embalsamento dos mortos naquela época).

Agora fico imaginando aquela moça simples de Nazaré, que mesmo assustada disse “sim” aos planos de seu Deus, fazendo um chá de bebê para Jesus, entregando convites às amigas com uma listinha do que o menino precisará: mamadeira, chupeta, fralda, brinquedo... acho pouco provável que qualquer mãe colocasse na lista a mirra, pois seu filho acabara de nascer, seria absurdo pensar desde já na sua morte. Os reis magos, vindos do oriente, trazendo de lá sua sabedoria, sabem que o presente tem mais a ver com necessidades do que com desejos. Seus presentes são educativos, catequéticos, preféticos, elucidativos. Falam ao coração, não ao bolso. São frutos do mergulho que deram no mistério da criação. E o verbo se fez carne e habitou entre nós!

O mais curioso é que agindo instrumentalmente acabamos conseguindo muitas vezes tudo o que desejamos, menos aquilo do que realmente necessitamos. Ficamos com presentes vazios de significado, com metáforas sem sentido, com presenças ausentes. Perdemos em emoção, em carinho, em surpresa, em alegria, em atenção sincera.

Eu nunca pensaria em colocar numa lista de desejos uma garrafa cheia de ar. De um ar puro, daqueles que trazem paz e tranqüilidade, segundo me disse quem me ofereceu esse presente, presente este que me faz parar para pensar, pensar que embora possa desejar tantas coisas, o que eu estava mesmo precisando era de paz e tranqüilidade. E se você me pergunta se essa garrafa de ar trará mesmo isso então não entendes de metáfora, não entendes de presentes. Neste caso, deixo pois, o conselho do Rubem Alves, meu escritor preferido: vá assistir “O Carteiro e o Poeta” primeiro e só depois torne a ler essa crônica.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

MINHA PRIMEIRA ÁRVORE DE NATAL

Nessa foto você pode estar vendo apenas uma árvore de natal exótica, rudimentar até, feita com cipós enrolados e decorada com umas poucas bolas de natal e algumas lâmpadas brancas. Na base, um tapete de palha, circunvizinhado por lâmpadas coloridas, com pedrinhas azuis salteadas e um presépio alternativo, feito de cerâmica e com “bonecos” de poucos traços. Você pode até ver isso, mas eu vejo outras coisas...

Após passar em um concurso para professor da Universidade Federal de Pernambuco, fui lotado no Campus do Agreste, que fica em Caruaru, cidade que, por seu São João gigantesco recebe o carinhoso título de “Capital do Forró”. Estou morando aqui a pouco mais de dois meses e embora sempre tenha tido uma relação familiar com a cidade, morar na terra da famosa feira de Caruaru tem sido um desafio, um bem-vindo e estimulante desafio. E foi nessa feira, cantada e decantada, em prova e verso, “que tem de tudo pra se ver”, que encontrei aquela que seria a “minha” primeira árvore de natal. Primeira, porque foi a primeira que eu mesmo montei e decorei, do meu jeito, do início ao fim.

Dizem que o pinheiro foi escolhido como “a” árvore de natal porque é uma das poucas plantas que, no rigoroso inverno que assola os países do hemisfério norte, não perde suas folhas, ou seja, tem “história” para contar... Pelas bandas de cá, no hemisfério sul e próximo à linha do Equador, o clima é um tanto quanto diferente, sendo um período de forte calor. Aqui no agreste pernambucano a árvore mais apropriada seria talvez o mandacaru, espécie de cactus que armazena água para suportar o clima seco, mantendo assim um verde vivo-esperança, esperança de chuva, que contrasta com o cinza-triste da vegetação ressequida.

Mas eu não tinha um mandacaru e ainda assim, continuava querendo um pouco de árvore “com história”, de modo que uma, feita por mãos simples de artesão, única em seu formato (desse tipo, não há duas exatamente iguais como acontece com os pinheiros artificiais que saem em massa das grandes fábricas nesse período), baseada em cipós naturais trabalhados para obter essas mesmas formas únicas a que me referi, me pareceram uma boa história para contar, tanto que aqui estou. Bati a feira de artesanato de Caruaru – local onde meu pai trabalhou por tantos anos – atrás daquela árvore e a descobri quando bati os olhos nela. Ainda pechinchei junto ao vendedor, mesmo sabendo que a levaria até por um preço maior. O tapete veio de bônus na negociação.

Na sequência, o desafio da decoração, que devo confessar, não é um dos meus atributos mais fortes. Porém, a sensação de comprar sozinho todos os apetrechos, colocando-os numa ordem aleatória, porém pessoal, sabendo que cada detalhe que enfim compôs a árvore, até mesmo o presépio encomendado a um famoso artesão do Alto do Moura – também único e original – me dão uma sensação de liberdade, de (re)nascimento. E foi justamente para que tenhamos a sensação de sermos libertos que Deus enviou seu filho ao mundo, filho que, como bem diz Santo Agostinho, “foi tão humano, mas tão humano, mas tão verdadeiramente humano, que só podia ser Deus”. Disse Ele: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”. Para isso Ele nasceu, por isso fazemos memória de seu nascimento, sem isso não faria sentido desejar Feliz Natal e distribuir presentes.

Pra você pode até ser uma rústica árvore de natal; pra mim, ela representa vida plena, liberta, alada como as asas de um pássaro encantado, transformadora como a ideia que faz a mente viajar e os olhos brilharem...