Certamente, uma das coisas que mais admiro na liturgia católica é o profundo respeito à perspectiva cíclica do tempo e sua relação com o rito, o qual é, segundo a raposa do livro O Pequeno Príncipe do Antoine Saint-Éxupery, “o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas”.
A liturgia católica diz que estamos no tempo dito “quaresma”, palavra que etmologicamente remonta ao número 40 e que faz referência aos 40 dias que Jesus teria jejuado antes de iniciar sua vida pública. Para as civilizações antigas os números comunicavam mais do que quantidades, expressavam também ideias, conceitos, símbolos. Nessa perspectiva 40 significa também “o tempo necessário para que algo aconteça”.
Realmente, ninguém sabe ao certo se o Cristo ficou 40 dias no deserto ou se o povo judeu, liberto da escravidão do Egito, caminhou mesmo 40 anos rumo à terra prometida de Canaã. Sabe-se apenas que tudo aconteceu no tempo que foi necessário para acontecer.
Literalmente, neste final de semana, várias foram as referências circulares, que me fizeram pensar no tempo, tanto que resolvi escrever alguns pensamentos dentro de um tempo de 40 minutos. Já estou escrevendo a 15. Faltam-me apenas 25 minutos? Não, de modo algum. Tenho o tempo que for necessário para escrever, já que os meus 40 minutos são um conceito abstrato-simbólico e não uma porção física de tempo.
A coisa começou quando ouvi um dos mais tradicionais cantos da quaresma, o “Vitória”. Seu refrão diz: “Vitória, tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás!”. É demasiado interessante a pseudo contradição da letra. Como um instrumento de tortura e de morte como a cruz pode ser a expressão de uma vitória? Porque cantar a vitória ainda na quaresma se a Páscoa só acontece depois?
Todas essas contradições são apenas aparentes, realçadas pelo efeito imediato que temos em nossas perspectivas de vida, esquecendo que tudo é avaliado não só sob a ótica do curto prazo, mas também do médio e, sobretudo, do longo prazo. Ampliando nossas perspectivas temporais, vemos que o sofrimento parece ser, tanto na religião, quanto na História, na natureza, nas Universidades, na Administração, na vida enfim, um dos mais fortes instrumentos para se alcançar a vitória, atingir objetivos, concluir metas, realizar sonhos.
E não, isto não é uma exaltação à dor, mas uma exaltação à “cruz”, ao instrumento, ao meio pelo qual se chega aos fins. A dor do processo é inevitável. Pode doer mais ou menos, mas ainda assim ela – a dor – estará lá e se é inevitável, inevitável também parece ser a necessidade de aprender algo com isso, não para justificar o sofrimento, mas para evitar dores maiores no futuro.
Na palavra “sacrifício” encontramos a mesma raiz de “sagrado”. “Sagrar” tem a ver com “deixar uma marca”. Talvez as palavras nos ajudem a entender porque os momentos mais “marcantes” de nossa vida, os mais “sagrados”, sejam aqueles que tenham exigido tanto “sacrifício” de nossa parte e das pessoas que estão mais perto de nós.

Nota-se então, que a vitória não é ponto de chegada, é caminho, e por isso é importante desde já cantar e decantar a vitória do Cristo Ressuscitado, do mártir patriota, da bela borboleta, do esforçado estudante, do trabalhador perseverante, enfim, do homem e da mulher de cada dia, que ri e chora, mas que busca sempre mais, afinal de contas, se Deus criou o infinito foi pra que a vida fosse sempre mais.
Inicialmente pensei em gastar 40 minutos, mas esse texto demorou 75 minutos para ser feito, ao menos no relógio do meu pulso, porque no relógio do tempo do coração, demorou o tempo que foi suficiente para se concretizar.