

Quando elaboro uma metáfora não posso pensar apenas em mim, devo pensar, sobretudo, na outra pessoa. De que adianta uma metáfora que não é compreendida? Preciso mergulhar na cultura do outro, na sua personalidade, no seu cotidiano, na sua vida. Só assim fará sentido utilizar metáforas. Similarmente deveria acontecer o mesmo com os presentes. Preciso antes me inserir no “eu” que é o “outro”. Infelizmente percebo que estamos perdendo essa dimensão.
Como damos presentes hoje? Para casamentos são feitas listas do que se quer ganhar e até de onde devem ser comprados; para aniversários, listas de desejos deixadas em lojas virtuais; quando da mudança para uma casa nova, “chá de panela” ou “chá de cozinha” (o mais engraçado é que eu soube que não há chás nesses eventos) também com uma relação do que se precisa; até no nascimento de uma criança fazem um “chá de bebê” (fico pensando na pobre criança sendo mergulhada na água fervente... risos) ou o que virou moda, pelo menos nessas bandas de cá: “chá de fraldas”, onde todos dão pacotes de fraldas descartáveis (práticas para os pais, péssimas para o meio ambiente). Ah, e há também as festas de dezembro, Natal e Ano Novo. Para não ter que dar presentes a todos ficamos práticos, inventamos os “amigos secretos”; mas para evitarmos distorções de presentes entre os presentes (dou algo “bom” e ganho uma “lembrancinha”) estabelecemos faixas de preço; só que muitos faltam na festinha de confraternização e para que ninguém dê e fique sem receber um presente, surgiu o “amigo secreto da hora”, todos levam presentes genéricos, “comuns aos dois gêneros”, e o sorteio e a entrega são realizados na hora.
Me pergunto eu: e o pensar no outro? e a emoção de dar algo com significado? e a surpresa do que há de vir? a que ponto chegamos enquanto sociedade? Instrumentalizamos o natal, a passagem de ano, o casamento, o aniversário, a mudança de endereço, até o nascimento de um filho...

Agora fico imaginando aquela moça simples de Nazaré, que mesmo assustada disse “sim” aos planos de seu Deus, fazendo um chá de bebê para Jesus, entregando convites às amigas com uma listinha do que o menino precisará: mamadeira, chupeta, fralda, brinquedo... acho pouco provável que qualquer mãe colocasse na lista a mirra, pois seu filho acabara de nascer, seria absurdo pensar desde já na sua morte. Os reis magos, vindos do oriente, trazendo de lá sua sabedoria, sabem que o presente tem mais a ver com necessidades do que com desejos. Seus presentes são educativos, catequéticos, preféticos, elucidativos. Falam ao coração, não ao bolso. São frutos do mergulho que deram no mistério da criação. E o verbo se fez carne e habitou entre nós!
O mais curioso é que agindo instrumentalmente acabamos conseguindo muitas vezes tudo o que desejamos, menos aquilo do que realmente necessitamos. Ficamos com presentes vazios de significado, com metáforas sem sentido, com presenças ausentes. Perdemos em emoção, em carinho, em surpresa, em alegria, em atenção sincera.